Um fenômeno no Pacífico pode mudar o clima do mundo — e bater recorde - Resenha crítica - 12min Originals
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Um fenômeno no Pacífico pode mudar o clima do mundo — e bater recorde - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

O El Niño é um fenômeno natural que começa no Oceano Pacífico, mas pode alterar chuvas, temperaturas e tempestades a milhares de quilômetros de distância. Ele acontece quando as águas superficiais do Pacífico equatorial ficam anormalmente quentes, enfraquecendo ou alterando os ventos que normalmente empurram a água quente para o oeste. O calor acumulado no oceano muda a circulação da atmosfera e reorganiza padrões climáticos em diferentes partes do planeta.

É por isso que um fenômeno que começa no Pacífico pode chegar ao supermercado, ao campo, aos portos e às decisões de governos do outro lado do mundo.

O El Niño deste ano já deixou de ser assunto de boletim meteorológico e virou decisão de governo e de mercado. Antes mesmo de atingir a força máxima, prevista para os próximos meses, ele já ajudou a derrubar o recorde de temperatura dos oceanos em pleno agosto, levou Panamá e El Salvador a decretarem emergência, reduziu o tráfego no Canal do Panamá e colocou bancos brasileiros refazendo contas de inflação de alimentos.

Como funciona o El Niño

O El Niño é o aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial, que se repete a cada poucos anos e reorganiza ventos e chuvas no mundo inteiro. Os ventos alísios normalmente sopram de leste para oeste sobre o Pacífico, empurrando a água quente em direção à Ásia. Durante o El Niño, esses ventos enfraquecem ou chegam a inverter de direção, permitindo que a água quente se espalhe para leste.

Esse deslocamento altera a circulação da atmosfera. O calor que o oceano libera para o ar muda a distribuição de chuva e temperatura e pode produzir efeitos muito distantes de onde o fenômeno começou.

Os cientistas consideram configurado um episódio de El Niño quando a temperatura da superfície do mar em uma região de referência do Pacífico equatorial fica pelo menos meio grau acima da média. Um episódio considerado grande costuma elevar essa temperatura em cerca de dois graus. As medições atuais já estão bem acima do limite usado para caracterizar o fenômeno.

Parte do combustível está abaixo da superfície: em alguns pontos do Pacífico, a água em profundidade está muito acima do normal, funcionando como uma reserva de calor que alimenta o fenômeno enquanto ele se desenvolve.

Um El Niño fora da curva

É nesse contexto que aparece a notícia deste ano. O serviço meteorológico britânico, o Met Office, recorreu a uma palavra que meteorologistas costumam evitar: inédito. "Nunca vi um sinal de El Niño tão intenso em nossas previsões", disse Adam Scaife, chefe de previsão de longo prazo do órgão.

As previsões do Met Office apontam para mais de três graus acima da média na superfície do mar na área de referência no pico deste ano — nível que não aparece nos registros modernos, iniciados em 1950, e que faria deste o episódio mais forte desde o século XIX.

Outros grupos de pesquisa projetam algo ainda mais drástico, de até quatro graus acima da média. Nesse cenário, diz Zeke Hausfather, cientista climático do Berkeley Earth, grupo de pesquisa dos Estados Unidos, "não é impossível dizer que este pode ser o evento El Niño mais forte em 500 ou até mesmo 1.000 anos" — embora, ressalve ele, seja impossível afirmar com certeza o que ocorreu em períodos tão remotos.

A NOAA, agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, estima mais de 90% de probabilidade de um evento muito forte entre o fim deste ano e o começo do próximo.

Recorde nos oceanos, e fora de época

O tamanho do fenômeno ajuda a explicar outro dado que chamou atenção. No dia 22, a temperatura média da superfície dos oceanos fora das regiões polares chegou a 21,1 °C, segundo o Copernicus, serviço de monitoramento climático da União Europeia. O valor superou o recorde anterior, registrado em março de 2024.

O que chamou atenção não foi apenas a marca, mas o calendário. A média global dos oceanos costuma atingir o auge em março e abril, no fim do verão do Hemisfério Sul, onde está a maior parte da superfície oceânica do planeta. Desta vez o recorde caiu em agosto, meses antes do esperado — e antes do pico do próprio El Niño.

"Este recorde é outro sinal claro de um oceano sob crescente pressão", afirmou Samantha Burgess, líder estratégica para o clima do Copernicus. "O El Niño está adicionando calor ao sistema, mas está fazendo isso sobre décadas de aquecimento causado pelo ser humano."

Como o fenômeno só deve atingir a força máxima entre novembro e janeiro, segundo o Copernicus, a expectativa é de que a água continue esquentando. Oceano mais quente significa mais energia e umidade para tempestades, ondas de calor marinhas que atingem recifes e bancos de algas, elevação do nível do mar por expansão térmica e menor capacidade de absorver dióxido de carbono.

De previsão a decreto: emergências já em curso

Panamá e El Salvador declararam estado de emergência na terça-feira. No Panamá, a ministra de Governo, Dinoska Montalvo, disse que a medida permite às autoridades "estar preparadas para o que pode vir com o El Niño". Em El Salvador, a Proteção Civil decretou alerta vermelho por seca meteorológica e agrícola em todo o território, e o Ministério da Agricultura anunciou distribuição de alimentos a famílias rurais sem sistemas de irrigação. Honduras já havia colocado quase 80% do território em alerta depois de a estiagem atingir lavouras de milho e feijão, e o Peru decretou emergência em um terço de suas cidades.

O efeito mais visível está no Canal do Panamá, por onde passa cerca de 5% do comércio marítimo mundial. O sistema de eclusas depende da água doce de lagos que também abastecem cidades panamenhas, e a chuva acumulada na bacia do canal ficou bem abaixo da média histórica desde maio. A Autoridade do Canal vai reduzir a passagem diária de 36 para 32 navios até a metade de setembro e limitar o calado — a profundidade que o casco ocupa na água —, o que obriga cada embarcação a levar menos carga. A MSC, uma das maiores companhias de navegação do mundo, já anunciou aumento na sobretaxa cobrada para atravessar o canal em cargas que saem da Ásia rumo às costas leste e do Golfo dos Estados Unidos.

O Brasil na rota: chuva, seca e o preço da comida

No Brasil, a tendência apontada pelas previsões é mais chuva no Sul e menos no Norte e no Nordeste. O Inmet prevê que a pecuária esteja entre as atividades mais afetadas no Centro-Oeste e no Norte, onde a falta de chuva reduz a água disponível para as pastagens; no Nordeste, o tempo seco pode favorecer a colheita do feijão, e no Sul as chuvas acima da média podem beneficiar as culturas de inverno. Para Diogo Arsego, meteorologista do CPTEC, ligado ao Inpe, o fenômeno se configurou em junho e deve seguir ativo até o início do ano que vem, com pico entre outubro e novembro.

A conta que chega ao consumidor é a do supermercado. Um estudo divulgado pelo g1 comparou episódios anteriores com a inflação dos alimentos consumidos em casa e estimou que, em um El Niño forte, os alimentos in natura — carnes, hortaliças, frutas — podem subir cerca de 20%, com efeito de pouco mais de 0,8 ponto percentual no IPCA quando somados todos os grupos de alimentos. As hortaliças reagem primeiro, porque têm ciclo de produção curto, e o impacto mais forte tende a aparecer cerca de seis meses depois do choque climático.

No mercado financeiro, estrategistas de grandes bancos apontam energia, agronegócio e varejo como os setores mais expostos, ainda que poucas empresas pareçam ter esse cenário incorporado aos preços — Ambev e Axia Energia, a antiga Eletrobras, aparecem como exceções. Na ponta produtora, uma análise da Multiplike calcula que um episódio muito forte pode reduzir em até 10% a produção brasileira de grãos, número apresentado como cenário de risco, não como previsão de perdas.

O resto do mundo já sente

Nos Estados Unidos, a NOAA projeta um inverno mais úmido na faixa sul do país e mais quente e seco no norte, o padrão associado ao fenômeno. A Califórnia é o epicentro esperado: o El Niño eleva o nível do mar na costa por expansão térmica e pelo deslocamento de ondas oceânicas rumo ao norte. Segundo Patrick Barnard, do Centro de Resiliência Climática Costeira da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, a elevação prevista exporia mais 170 mil pessoas ao risco de inundação costeira do que em um ano sem o fenômeno.

No Havaí, onde águas mais frias costumam funcionar como barreira contra ciclones, duas tempestades se aproximaram do arquipélago em duas semanas: o furacão Lala provocou deslizamentos e enchentes na Ilha Grande, e a tempestade tropical Moke veio na sequência. O normal, segundo o Serviço Nacional de Meteorologia americano, é um sistema por temporada passando perto do estado.

No Reino Unido, o Met Office espera outono e começo de inverno mais chuvosos e tempestuosos, sobretudo a partir de novembro, depois de um verão de calor e seca. Efeitos opostos aparecem em outros lugares: as chuvas de monção na Índia estão abaixo da média e a temporada de furacões no Atlântico registrou apenas três tempestades nomeadas até agora. Na Indonésia, incêndios queimaram mais de 200 mil hectares no ano, e no Sri Lanka o governo distribui água por caminhão a quase 72 mil pessoas.

Força maior não é destino certo

É a ressalva que os cientistas repetem: um El Niño historicamente forte não garante impactos historicamente intensos. "Episódios mais fortes aumentam a possibilidade de determinadas consequências, mas não garantem que elas ocorrerão em todas as regiões", diz Michelle L'Heureux, do Centro de Previsão Climática da NOAA. A agência descreve o efeito como um aumento de probabilidade de certos padrões, não como sentença.

A história recente confirma a variação. O super El Niño de 2015 e 2016 rendeu bem menos chuva à Califórnia do que o episódio anterior de mesma classificação, e a Associação Brasileira de Municípios, ao publicar um guia de preparação para prefeituras, faz questão de registrar a mesma ressalva sobre os efeitos previstos por região. O que há de novo, dizem os pesquisadores, é o pano de fundo: o fenômeno ocorre em um planeta já aquecido, e o Met Office considera muito provável que o próximo ano substitua 2024 como o mais quente já registrado.

O que fazer com essa informação

Não dá para agir sobre uma média global. O que muda de fato depende de onde você está e do que você compra, e há três frentes concretas para acompanhar nos próximos meses.

A primeira é a previsão regional. As projeções do Inmet e o cenário reunido pela Associação Brasileira de Municípios apontam chuva acima da média no Sul, com risco de temporais, enchentes e deslizamentos; estiagem, queda no nível dos rios e maior risco de queimadas no Norte e no Nordeste; e calor com baixa umidade no Centro-Oeste, especialmente no Pantanal. Quem mora em área de risco de alagamento ou deslizamento tem aí um calendário: o guia recomenda que prefeituras mapeiem essas áreas, atualizem planos de contingência e definam abrigos antes do pico, e essa é uma informação que dá para cobrar localmente.

A segunda é o preço da comida. Se o repasse seguir o padrão dos episódios anteriores, o efeito mais forte aparece cerca de seis meses depois do choque climático, e começa pelas hortaliças, que respondem mais rápido. Alimentos semi-elaborados, como arroz e feijão, e industrializados tendem a subir menos e mais devagar.

A terceira é o custo dos importados. Com menos navios por dia e limite de calado no Canal do Panamá, sobretaxas de frete já foram anunciadas, e o efeito costuma chegar ao consumidor com atraso, em eletrônicos, produtos de e-commerce e itens vindos da Ásia. Os próximos boletins da NOAA e do Met Office, entre outubro e janeiro, dirão se o pico confirma ou não a trajetória recorde projetada.

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